045. Nefilins
✍🏻 https://www.youtube.com/watch?v=AKwPGngcImw🔖 Doutrina_e_Escatologia, Cosmologia

Gênesis 6:1-5
1. Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, 2. viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. 3. Então disse o Senhor: O meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, porquanto ele é carne, mas os seus dias serão cento e vinte anos. 4. Naqueles dias estavam os nefilins na terra, e também depois, quando os filhos de Deus conheceram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos. Esses nefilins eram os valentes, os homens de renome, que houve na antigüidade. 5. Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente.
Identidade e Interpretações dos “Filhos de Deus”
O debate sobre a identidade das figuras em Gênesis 6:1-4 gira em torno da pergunta: quem são os “filhos de Deus” que tomaram as filhas dos homens como esposas? Três visões clássicas predominam:
- Visão Angélica ou Sobrenatural: Os “filhos de Deus” são seres celestiais ou anjos caídos. Os Nephilim seriam o resultado híbrido dessa união.
- Visão Setita: Os “filhos de Deus” são os descendentes da linhagem piedosa de Sete, enquanto as “filhas dos homens” seriam da linhagem de Caim.
- Visão Real: Os “filhos de Deus” seriam figuras da realeza, como reis ou governantes humanos de grande poder.
Argumentos a Favor da Interpretação Sobrenatural
A defesa da visão angélica baseia-se em uma abordagem cumulativa de sete pontos principais:
1. Evidência Lexical
O termo hebraico Bene Ha-Elohim (filhos de Deus) é utilizado em outros lugares da Bíblia Hebraica (como em Jó 1:6, 2:1 e 38:7 e nos Salmos 29 e 89) para se referir especificamente a seres celestiais ou membros do conselho divino. Não há precedente claro no Antigo Testamento para que essa frase exata se refira a humanos, como a linhagem de Sete.
Jó 1:6 - ALMEIDA
6. Ora, chegado o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles.
Jó 2:1 - ALMEIDA
1. Chegou outra vez o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor; e veio também Satanás entre eles apresentar-se perante o Senhor.
Jó 38:7 - ALMEIDA
7. quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?
Salmos 29:1
1. Tributai ao Senhor, ó filhos de Deus, tributai ao Senhor glória e força.
Salmos 89:5-7
5. Os céus louvarão as tuas maravilhas, ó Senhor, e a tua fidelidade na assembléia dos santos. 6. Pois quem no firmamento se pode igualar ao Senhor? Quem entre os filhos de Deus é semelhante ao Senhor, 7. um Deus sobremodo tremendo na assembléia dos santos, e temível mais do que todos os que estão ao seu redor?
2. Contexto Narrativo e Escala de Pecado
Gênesis 1-11 apresenta uma progressão de transgressões de limites divinos: a queda de Adão, o fratricídio de Caim, a arrogância de Lameque e a Torre de Babel. A história dos Nephilim se encaixa nesse padrão de “violação de fronteiras” cósmicas. A união entre anjos e humanos é vista como uma transgressão desestabilizadora que precipita o julgamento severo do Dilúvio.
3. Paralelos no Antigo Oriente Próximo
A literatura da época, como a Epopeia de Gilgamesh, continha histórias de semideuses e seres híbridos (parte divinos, parte humanos). Gênesis 6 pode ser lido como uma polêmica que reformula esses mitos conhecidos, despojando-os de sua glória heróica e enquadrando-os como atos de rebelião resultando em julgamento.
4. Tradição Judaica Antiga
- Septuaginta: Algumas tradições manuscritas traduzem a frase como “anjos de Deus”.
- Historiadores: Josefo e Filo de Alexandria interpretaram os filhos de Deus como seres celestiais.
- Literatura Apócrifa: O Livro de Enoque detalha a história dos “Vigilantes” (Watchers), 200 anjos que desceram ao Monte Hermom para coabitar com mulheres, ensinando-lhes magia e gerando gigantes.
5. Ressonância no Novo Testamento
Judas 1:6 - ALMEIDA
6. aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, ele os tem reservado em prisões eternas na escuridão para o juízo do grande dia,
2 Pedro 2:4 - ALMEIDA
4. Porque se Deus não poupou a anjos quando pecaram, mas lançou-os no Tártaro, e os entregou aos abismos da escuridão, reservando-os para o juízo;
Passagens como Judas 6 e 2 Pedro 2:4 mencionam anjos que “não guardaram seu estado original” e abandonaram sua “própria habitação”, sendo aprisionados para o julgamento. A conexão temática com o período de Noé sugere que os autores do Novo Testamento aceitavam a interpretação angélica de Gênesis 6.
6. Patrística (Igreja Primitiva)
Muitos pais da igreja dos primeiros séculos, como Justino Mártir, Tertuliano e Irineu, mantiveram a visão angélica. Justino Mártir, por exemplo, descreveu que os anjos transgrediram seu dever, foram cativados por mulheres e geraram filhos que se tornaram demônios. Esta visão só foi amplamente alterada no século IV com Agostinho, que favoreceu a visão setita.
7. Singularidade dos Nephilim
A descrição dos Nephilim como “homens de renome” e “poderosos” (gibborim) sugere que eles eram figuras únicas e notáveis. Embora o termo possa se referir a guerreiros humanos em outros contextos (como os soldados de Davi), sua origem em Gênesis sugere uma distinção qualitativa que a visão setita tem dificuldade em explicar satisfatoriamente.
A Objeção da Corporeidade Angélica
A principal crítica à visão angélica é a dúvida sobre como seres espirituais poderiam procriar com humanos. O documento oferece contra-argumentos baseados no texto bíblico:
| Contexto Bíblico | Manifestação Física dos Anjos |
|---|---|
| Gênesis 18 | Três visitantes de Abraão comem uma refeição física. |
| Gênesis 19 | Dois anjos em Sodoma são percebidos como homens físicos, interagem com Ló e são alvo de desejos sexuais por parte da multidão. |
| Gênesis 32 | Jacó luta fisicamente com uma figura divina. |
| Hebreus 13:2 | O texto sugere que anjos podem ser confundidos com humanos. |
A conclusão é que, na narrativa bíblica, os anjos não são meramente figuras imateriais; eles têm o poder de assumir formas corpóreas que interagem com a realidade física (comer, tocar, lutar). O comentário de Jesus sobre anjos não se casarem (Mateus 22:30) refere-se ao estado normal e fiel dos anjos no céu, não limitando a capacidade de uma rebelião extraordinária e transgressora.
Mateus 22:30 - ALMEIDA
30. pois na ressurreição nem se casam nem se dão em casamento; mas serão como os anjos no céu.
Consequências e Implicações Teológicas
A aceitação da interpretação sobrenatural carrega implicações importantes para o pensamento cristão:
- Abertura ao Sobrenatural: Desafia a visão de mundo “achatada” do iluminismo moderno, convidando o leitor a reconhecer uma realidade espiritual mais texturizada e complexa.
- A Bondade do Julgamento Divino: Sob esta ótica, o Dilúvio não é um ato de crueldade arbitrária, mas um ato necessário de “limpeza” e “cura” da Terra contra uma contaminação grotesca e sobrenatural que violava a criação de Deus.
- Contraste com a Encarnação de Cristo: Existe um paralelo inverso entre a união não natural em Gênesis 6 e a união divina-humana em Jesus. Enquanto os anjos desceram para degradar a humanidade e buscar prazer próprio, o Filho de Deus encarnou-se para elevar a natureza humana e salvar a humanidade através do serviço e sacrifício. A união em Cristo aperfeiçoa a natureza humana, ao contrário da união angélica que a distorceu.