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O Reino Futuro de Deus - Robert Govett

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1. Introdução: O Que é o “Reino de Deus”?

O que a Bíblia realmente quer dizer com “O Reino de Deus” ou “O Reino dos Céus”? Poucos temas são tão centrais para o Novo Testamento, e poucos, quando compreendidos corretamente, têm o poder de transformar tão profundamente a vida cristã. Para o teólogo do século XIX, Robert Govett, a resposta a essa pergunta é clara e radicalmente diferente da interpretação predominante em sua época e na nossa.

A tese principal de Govett é que, embora o Reino tenha um aspecto presente, ele é primariamente um reino literal, futuro e manifesto que será estabelecido na Terra com a volta de Cristo. Em suas palavras, “Por ‘o reino dos céus’, ou ‘o reino de Deus’, entende-se geralmente… o reino milenar, ou o reino em manifestação.”

Essa visão contrasta fortemente com a que Govett chama de “antimilenarista”, que interpreta o Reino como sendo a dispensação atual da graça, ou simplesmente a Igreja. Essa abordagem, segundo ele, tende a espiritualizar as profecias do Antigo Testamento, transformando as promessas literais feitas a Israel em alegorias sobre a Igreja.

Para compreender seu argumento, é essencial entender a distinção fundamental que Govett estabelece entre os dois estados do Reino, uma chave que destrava todo o seu sistema teológico.

2. A Distinção Crucial: Mistério vs. Manifestação

O conceito central de Govett é que a Bíblia descreve dois estados ou fases distintas do Reino de Deus:

Govett resume a transição entre essas duas fases e a estrutura dupla do reino futuro com base nas palavras de Jesus:

Mateus 13:41-43 - ALMEIDA

41. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles ajuntarão do seu reino todos os que servem de tropeço, e os que praticam a iniquidade, 42. e lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes. 43. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.

“O Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles ajuntarão do seu reino todos os tropeços (grego) e os que praticam a iniquidade; e os lançarão na fornalha de fogo.” Aqui está o departamento terreno do reino milenar. Mas nosso Senhor acrescenta: “Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai.” Aqui está a esfera daqueles ressuscitados dentre os mortos, ou o departamento celestial do reino milenar.

No entanto, para defender essa distinção, Govett primeiro aborda as passagens que parecem contradizê-la, argumentando que são frequentemente mal interpretadas.

3. Desvendando Passagens Comuns: O Reino é Realmente Apenas Espiritual?

Govett identifica cinco passagens principais que são frequentemente usadas para argumentar que o Reino de Deus é um conceito puramente presente e espiritual. Ele as considera “passagens excepcionais” que, quando mal interpretadas, geram grande confusão.

A tabela a seguir resume a análise de Govett sobre essas passagens:

Passagem e Interpretação Comum A Explicação de Govett
> [!bible] 1 Coríntios 4:20 - ALMEIDA
> 20. Porque o reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder.

Interpreta-se como o poder espiritual atuando na Igreja agora.
Govett concorda que se aplica à era atual, mas argumenta que se aplica “com mais força e plenitude” ao reino milenar. O poder manifestado nos milagres durante a pregação apostólica era um testemunho e uma prévia do “poder do reino que se manifestará no trono”.
> [!bible] Colossenses 1:13 - ALMEIDA
> 13. e que nos tirou do poder das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado;

Isso é visto como prova de que os crentes já estão no Reino.
Govett afirma que isso descreve a transferência do crente do reino de Satanás para o “Reino de Cristo em mistério”. No entanto, ele adverte que a entrada no “Reino em manifestação” é outra questão, que depende da conduta do crente durante o período presente.
> [!bible] Romanos 14:17 - ALMEIDA
> 17. porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo.

Argumenta-se que isso define o Reino como puramente espiritual.
Govett oferece duas interpretações, preferindo a segunda. Ele argumenta que, embora o reino futuro tenha comida e bebida (como prometido a Israel), essas não serão suas características principais. Sua grande superioridade será a “justiça”, a “paz” e a “alegria” que o caracterizarão, em contraste com a iniquidade, a guerra e a tristeza dos reinos humanos.
> [!bible] João 18:36 - ALMEIDA
> 36. Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; entretanto o meu reino não é daqui.

Usado para provar que o Reino de Cristo não é um império literal e terreno.
Govett destaca que a tradução correta do grego é “não é proveniente deste mundo” (ek tou kosmou). O ponto de Jesus não era que seu reino não seria na terra, mas que sua origem e poder não viriam de fontes humanas, mas do céu. Ele seria estabelecido pelos “exércitos do céu”, não pelos “exércitos da terra”.
> [!bible] Lucas 17:20-21 - ALMEIDA
> 20. Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, respondeu-lhes: O reino de Deus não vem com aparência exterior; 21. nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Eí-lo ali! pois o reino de Deus está dentro de vós.

Talvez o argumento mais forte para um reino puramente interior e espiritual.
Govett argumenta que Jesus estava se dirigindo a seus inimigos, os fariseus. A resposta foi de “obscuridade estudada”, significando que eles não podiam ver o reino externo porque lhes faltava a preparação interna. Imediatamente depois, ao se voltar para seus discípulos, Jesus descreve o reino como um evento futuro, visível e dramático, “como o relâmpago”, confirmando sua natureza externa.
Após desconstruir os principais contra-argumentos, Govett passa a construir seu caso positivo para um reino futuro e pessoal, centrado na presença visível do Rei.

4. As Provas de um Reino Pessoal e Futuro

Para Govett, a característica mais essencial do “Reino em Manifestação” é a presença pessoal e visível do Rei, Jesus Cristo. Ele apresenta três linhas principais de evidência para provar que o Reino é um evento futuro e pessoal.

  1. O Rei Deve Estar Presente para Reinar Govett usa a analogia do Rei Davi. Davi foi ungido rei, mas não reinou de fato enquanto seu rival, Saul, estava no poder. Da mesma forma, Jesus é rei de direito desde sua unção, mas não reinará de fato até que seu rival, Satanás, seja deposto em Sua volta. Atualmente, Jesus está “esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés” (Hebreus 10:13). O caráter do reino depende da presença do rei; enquanto Ele está ausente, vivemos no tempo da proclamação do reino, não de sua manifestação em poder.

Hebreus 10:13 - ALMEIDA

13. daí por diante esperando, até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés.

  1. Profecias do Antigo Testamento Exigem um Cumprimento Literal Govett argumenta que espiritualizar as profecias do Antigo Testamento é um erro. Elas descrevem um reino físico e futuro:
    • Isaías 11: O Messias matará o “Ímpio” (o Homem do Pecado) com o sopro de sua boca e trará paz literal à natureza (os animais selvagens serão domesticados). Isso claramente ainda não aconteceu.

Isaías 11:4 - ALMEIDA

4. mas julgará com justiça os pobres, e decidirá com eqüidade em defesa dos mansos da terra; e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio.

Isaías 11:6 - ALMEIDA

6. Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará; e o bezerro, e o leão novo e o animal cevado viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá.

- Daniel 2 e 7: O Reino de Deus é uma “pedra” que vem do céu para destruir violentamente os reinos humanos. É um ato de julgamento externo e súbito, não uma influência interna e gradual.

Daniel 2:34 - ALMEIDA

34. Estavas vendo isto, quando uma pedra foi cortada, sem auxílio de mãos, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e de barro, e os esmiuçou.

Daniel 7:14 - ALMEIDA

14. E foi-lhe dado domínio, e glória, e um reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.

- Zacarias 14: Os pés do Senhor se porão fisicamente no Monte das Oliveiras. Ele se tornará “rei sobre toda a terra”, e as nações sobreviventes subirão a Jerusalém anualmente para adorá-Lo.

Zacarias 14:4 - ALMEIDA

4. Naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém para o oriente; se o monte das Oliveiras será fendido pelo meio, do oriente para o ocidente e haverá um vale muito grande; e metade do monte se removerá para o norte, e a outra metade dele para o sul.

  1. Para Govett, essas profecias devem ser lidas com a mesma literalidade que as profecias sobre a primeira vinda de Cristo, um princípio hermenêutico que os antimilenaristas abandonam.
  2. O Testemunho do Novo Testamento Confirma um Reino Literal Govett ressalta um ponto crucial: embora Jesus tenha corrigido alguns erros dos discípulos sobre o reino (como o tempo de sua vinda e as condições de entrada), Ele nunca corrigiu a expectativa de um reino pessoal e visível. Pelo contrário, Ele a confirmou:
    • A Transfiguração (Mateus 17): Foi uma prévia literal, uma “visão do Seu reino”, mostrando Jesus pessoalmente presente em glória na Terra com Moisés e Elias.

Mateus 16:28 - ALMEIDA

28. Em verdade vos digo, alguns dos que aqui estão de modo nenhum provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino.

Mateus 17:1-2 - ALMEIDA

1. Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, irmão deste, e os conduziu à parte a um alto monte; 2. e foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.

- A Promessa aos Apóstolos (Mateus 19:28): Jesus promete explicitamente que eles se sentarão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel “na regeneração, quando o Filho do Homem se assentar no seu trono de glória”.

Mateus 19:28 - ALMEIDA

28. Ao que lhe disse Jesus: Em verdade vos digo a vós que me seguistes, que na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, sentar-vos-eis também vós sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.

- A Ceia do Senhor (Lucas 22): Jesus faz um pacto de não beber do fruto da videira “até que venha o reino de Deus”, ligando diretamente a consumação do reino à Sua presença física em um banquete futuro.

Lucas 22:16 - ALMEIDA

16. pois vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus.

Essa visão de um reino literal e pessoal levanta uma questão importante: qual será a sua natureza? Govett responde descrevendo uma estrutura dupla, com domínios distintos no céu e na terra.

5. Os Dois Domínios do Reino: Céu e Terra

Uma crítica comum à visão de um reino literal é que ela soa “terrena e judaica demais”. Govett responde a essa crítica descrevendo dois “departamentos” distintos do reino vindouro, um celestial e um terrestre, que operam simultaneamente.

A tabela abaixo compara esses dois domínios:

Domínio Celestial Domínio Terrestre
Quem: A Igreja, os santos ressuscitados que reinarão com Cristo. Quem: A nação de Israel restaurada e as nações gentílicas que sobreviverem ao julgamento.
Chamado: Um “chamado celestial” (Hebreus 3:1), para uma herança no alto. Chamado: O cumprimento das promessas terrenas feitas a Abraão e Davi.
Natureza: Corpos glorificados e ressurretos, “brilhando como o sol no reino de seu Pai” (Mateus 13:43). Natureza: Pessoas vivendo em corpos mortais em uma terra restaurada sob o governo justo de Cristo.
Capital: A Nova Jerusalém, a cidade celestial que desce do céu (Hebreus 11:16). Capital: A Jerusalém terrena, reconstruída e glorificada, com o Templo restaurado, chamada “O Trono do Senhor” (Jeremias 3:17).
Com essa arquitetura do Reino futuro estabelecida, surge a pergunta inevitável: o que isso significa para o crente hoje? Para Govett, a resposta é tudo.

6. A Missão do Crente: Buscar o Reino e Sua Recompensa

Segundo Govett, a compreensão correta do reino futuro deve moldar radicalmente a vida do cristão no presente. A instrução central de Jesus em Mateus 6:33, “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”, torna-se o princípio organizador da vida cristã. Para Govett, isso significa:

Essa distinção entre salvação como dom e recompensa como prêmio é fundamental na teologia de Govett. Para ilustrar essa busca ativa, ele recorre à analogia do apóstolo Paulo sobre a vida cristã como uma competição atlética, citando suas palavras em 1 Coríntios 9:24-25:

1 Coríntios 9:24-25 - ALMEIDA

24. Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só é que recebe o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. 25. E todo aquele que luta, exerce domínio próprio em todas as coisas; ora, eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, nós, porém, uma incorruptível.

Essa perspectiva transforma a vida cristã de uma espera passiva em uma busca ativa, culminando em uma esperança que redefine o presente.

7. Conclusão: Uma Esperança que Transforma o Presente

A visão de Robert Govett sobre o Reino de Deus oferece uma perspectiva robusta, literal e focada no futuro, que desafia muitas interpretações modernas. Seus pontos-chave podem ser resumidos da seguinte forma:

Para Govett, a doutrina do Reino não é uma mera curiosidade teológica ou um debate escatológico secundário. É uma esperança gloriosa e tangível que serve como uma âncora para a alma, dando propósito, urgência e significado à jornada cristã no “dia mau” presente, transformando a forma como vivemos, sofremos e servimos enquanto aguardamos o retorno do Rei.

As Parábolas do Reino: Um Guia para Entender Mateus 13

1. Introdução: O Reino de Deus em Duas Fases

O Novo Testamento apresenta o conceito do “Reino de Deus” em duas fases distintas, mas interligadas. Compreender essa distinção é fundamental para interpretar corretamente os ensinamentos de Jesus, especialmente as parábolas encontradas no capítulo 13 do Evangelho de Mateus. As duas fases são:

  1. O Reino em Mistério: Refere-se ao estado atual do reino. É uma fase caracterizada pela paciência de Deus, na qual o Messias está oculto nos céus e o evangelho é pregado aos gentios. Durante este período, o bem e o mal, os verdadeiros e os falsos discípulos, coexistem no mundo.
  2. O Reino em Manifestação: Refere-se ao estado futuro do reino, o reino milenar. Esta fase será inaugurada com o retorno visível de Cristo, marcada por julgamento, justiça e a manifestação gloriosa de Seu poder sobre a Terra.

A transição de Jesus para o ensino por parábolas foi um momento crucial em Seu ministério. Essa mudança não foi arbitrária, mas uma resposta direta à crescente incredulidade de Israel, que culminou na blasfêmia contra o Espírito Santo. Essa mudança assinala um julgamento divino sobre a incredulidade da nação, onde o próprio método de ensino se torna uma ferramenta tanto de revelação quanto de ocultação. Diante dessa rejeição, Jesus adotou as parábolas como um véu deliberado sobre Seus ensinamentos. Para Seus discípulos, cujos corações estavam abertos, as parábolas revelavam os profundos mistérios do Reino. Para aqueles que O rejeitavam, elas ocultavam o significado espiritual, cumprindo a profecia de Isaías sobre um povo que “ouvindo, não entende, e, vendo, não percebe”.

As sete parábolas de Mateus 13, portanto, não descrevem o reino glorioso e manifesto profetizado no Antigo Testamento, mas sim as características da fase atual e misteriosa do Reino. Vamos explorar o que cada uma delas revela sobre este tempo presente.

2. As Parábolas do “Reino em Mistério”

As primeiras quatro parábolas analisadas por Robert Govett foram dirigidas às multidões e revelam as características externas e os desafios da fase atual e oculta do Reino, o período que se estende desde a primeira vinda de Cristo até o Seu retorno em glória.

2.1 A Parábola do Semeador: Os Obstáculos à Palavra do Reino

Para entender os desafios do Reino em sua fase atual, Jesus nos oferece primeiro a Parábola do Semeador como uma lição fundamental sobre os obstáculos que a Palavra enfrenta. Ela não apresenta Cristo com um “cetro esmagando os inimigos”, mas como o “Homem de Paz, semeando a Palavra de Deus”.

O propósito central desta parábola é revelar os três grandes obstáculos à recepção do testemunho de Deus sobre o Reino vindouro: o mundo, a carne e o diabo. Jesus identificou quatro classes de ouvintes, cada uma reagindo de maneira diferente à semente semeada:

2.2 A Parábola do Grão de Mostarda: O Crescimento de um Sistema Mundano

Esta parábola prevê o desenvolvimento anormal do testemunho cristão na Terra. A razão para esta interpretação é que a mostarda é uma erva, não uma árvore. Seu crescimento em uma estrutura massiva, onde as aves (“Satanás e seus anjos”) podem se aninhar, simboliza um crescimento maligno e antinatural. Em vez de permanecer separado, o testemunho cristão se transformaria em um grande sistema mundano, onde a religião se torna nacionalizada.

Nesse sistema, seus líderes aspiram ao mesmo poder, pompa e orgulho dos reis terrenos, transformando os ministros do Evangelho em “co-governantes do mundo”. O exemplo mais notável citado na fonte é o sistema papal em Roma, mas o princípio se aplica sempre que a religião se funde com o poder secular.

2.3 A Parábola da Rede: O Julgamento Final das Nações

A Parábola da Rede simboliza o julgamento das nações gentias que ocorrerá no final da era atual, um evento paralelo ao julgamento das Ovelhas e dos Bodes descrito em Mateus 25. O critério para este julgamento é o tratamento dispensado por essas nações à semente natural de Abraão, o povo judeu. Elas serão abençoadas ou amaldiçoadas conforme abençoaram ou amaldiçoaram Israel.

A execução do julgamento será realizada por Cristo, por meio da agência dos anjos, resultando em uma separação final. Os maus serão removidos do meio dos justos, sendo lançados na “fornalha de fogo”, enquanto os justos herdarão a Terra.

2.4 A Parábola do Trigo e do Joio: O Reino em Mistério e em Manifestação

Govett considera esta parábola “peculiarmente valiosa, pois apresenta, em uma única visão, ambos os aspectos do reino”. Ela serve como uma síntese magistral dos temas anteriores, descrevendo a obra de Cristo sendo corrompida pela ação de Satanás, que semeia “cristãos falsificados” no mundo. A instrução do Senhor é clara: não deve haver nenhuma tentativa humana de erradicar os falsos professos, pois ambos devem “crescer juntos” até o fim desta era. O julgamento não pertence a este tempo de mistério e misericórdia.

A tabela abaixo contrasta as duas fases do reino, conforme ilustrado nesta parábola:

O Reino em Mistério (Período Atual) O Reino em Manifestação (Período Futuro)
Período de misericórdia e paciência de Deus. Período de julgamento que encerra a fase de mistério.
O trigo (verdadeiros discípulos) e o joio (falsos professos) coexistem no mundo. O Filho do Homem envia Seus anjos para realizar a separação definitiva.
Os discípulos são proibidos de tentar arrancar o joio e exercer julgamento. Os anjos reúnem e lançam os iníquos e os tropeços na fornalha de fogo.
A glória dos justos está oculta. Os justos brilham como o sol no reino de seu Pai.

Após Jesus ter explicado estas parábolas, os discípulos precisavam entender como essas novas revelações se encaixavam com as profecias que já conheciam. A resposta de Jesus oferece a chave para uma interpretação equilibrada.

3. A Chave de Interpretação: Tesouros Novos e Velhos

Em Mateus 13:52, Jesus oferece a chave para harmonizar Suas novas parábolas com as antigas profecias. Ele compara um escriba instruído no Reino a um “chefe de família” que tira de seu tesouro “coisas novas e velhas”. Isso significa que um mestre da Palavra de Deus deve ser capaz de apresentar ambas as visões do Reino, cada uma em seu devido lugar, sem anular a outra. O mestre deve ser capaz de servir tanto “uvas recém-colhidas” quanto “passas do ano anterior”, ou “figos frescos” e “figos secos”.

A tabela abaixo ilustra essa distinção:

Tesouros Velhos (Profecias do Antigo Testamento) Tesouros Novos (Parábolas de Jesus)
Referem-se à visão do reino em glória e manifestação. Referem-se à visão do reino em mistério.
Descrevem o reino literal prometido a Israel. Descrevem o período atual de paciência de Deus.
Foram a interpretação correta dos judeus sobre um dia futuro. São a interpretação correta dos cristãos sobre a dispensação presente.
Focam na vinda do Rei para reinar e julgar. Focam no adiamento do reino de glória devido à incredulidade de Israel.

A principal lição desta analogia é que as novas revelações (as parábolas) não anulam nem contradizem as antigas (as profecias). O “novo” não substitui o “velho”; ambos são válidos e devem ser mantidos lado a lado, cada um bom em sua estação. A falha em discernir essa distinção leva à confusão, tentando aplicar as características do tempo da graça ao futuro tempo da glória.

4. Conclusão: Distinguindo o Tempo da Graça do Tempo da Glória

O insight mais crucial deste guia é a necessidade de distinguir cuidadosamente entre as duas fases do Reino de Deus. As parábolas de Mateus 13, conforme interpretadas, não descrevem um reino espiritual que substitui as profecias do Antigo Testamento. Pelo contrário, elas revelam a natureza da fase intermediária do reino, um tempo de mistério inserido na história devido à rejeição de Israel. Este é um período de paciência divina, caracterizado pela coexistência do bem e do mal, da verdade e da imitação, enquanto a Igreja é chamada do meio dos judeus e dos gentios.

É, portanto, um erro fundamental “interpretar concernente ao reino da graça aquilo que Deus falou sobre o reino da glória”. Ao manter essas duas verdades — os tesouros novos e os velhos — em seus devidos lugares, obtemos uma compreensão clara do plano de Deus, tanto para a era presente quanto para a era vindoura, que será inaugurada pelo retorno pessoal de Cristo para exercer julgamento e reinar com glória visível.

Ceia e o Reino

De acordo com as fontes, a relação entre a Ceia do Senhor e o Reino de Deus é profunda e multifacetada, atuando como um memorial da ausência do Rei e uma promessa de Sua futura manifestação gloriosa.

Os principais pontos dessa relação, fundamentados nas passagens bíblicas citadas, são:

  1. Um Memorial da Ausência do Rei

A Ceia do Senhor é celebrada especificamente durante o período do “Reino em Mistério”, enquanto o Rei está ausente. Ela serve para comemorar a morte de Cristo “até que Ele venha” (1 Coríntios 11:26). Segundo as fontes, assim que o Reino em Manifestação (o Milênio) for estabelecido, a Ceia cessará, pois não há necessidade de um memorial para alguém que está fisicamente presente.

  1. O Voto Nazireu de Jesus

Nas fontes, destaca-se que Jesus assumiu um “Voto Nazireu” durante a última ceia. Ao dizer em Mateus 26:29 e Lucas 22:18 que não beberia do fruto da videira até que o Reino de Deus viesse, Ele indicou uma abstinência voluntária da alegria terrena até o momento de Sua vitória e retorno. Esse voto define que o coração de Cristo está focado na introdução do Reino, e Ele não celebrará plenamente até que o Reino em Manifestação seja estabelecido.

  1. A Base do Novo Pacto

O cálice da Ceia representa o sangue do Novo Testamento (ou Pacto) (Mateus 26:28; Lucas 22:20). As fontes argumentam que este pacto é essencial para o Reino, pois o antigo pacto feito no Sinai (Êxodo 24) falhou devido à fraqueza humana. O sangue de Cristo provê a remissão de pecados e a base necessária para que o Reino seja estabelecido sobre a terra, especialmente em relação à futura restauração de Israel (Atos 3:20-21).

  1. Promessa de um Banquete Futuro

Diferente da visão puramente simbólica, as fontes sugerem que haverá uma celebração literal no Reino vindouro. Jesus prometeu em Lucas 22:30 que os apóstolos comeriam e beberiam à Sua mesa no Seu Reino e se sentariam em tronos para julgar as doze tribos de Israel. Esse banquete futuro é prefigurado por:

• A promessa de um “banquete de vinhos finos” em Isaías 25:6.

• A mesa de Salomão (1 Reis 4:22-24), que maravilhou a Rainha de Sabá (1 Reis 10:5) e serviu como um tipo da glória futura.

  1. Distinção entre Graça e Glória

A Ceia marca o tempo da paciência de Deus. O fato de Jesus ainda não ter bebido vinho novamente desde aquela noite é usado nas fontes como prova de que o Reino de Deus ainda não veio em sua forma manifesta e gloriosa. Enquanto o mundo permanece em trevas, a Ceia é o sustento dos “peregrinos” que aguardam a posse da terra prometida.


Para ilustrar essa transição, imagine que a Ceia do Senhor é como uma fotografia de um ente querido que está em uma longa viagem. Nós olhamos para a foto (a Ceia) para recordar sua promessa e presença enquanto ele está longe (1 Coríntios 11:26). No entanto, no dia em que esse ente querido atravessa a porta de casa (o retorno de Cristo), nós guardamos a fotografia na gaveta, pois agora temos a pessoa real à mesa para um banquete vivo (Lucas 22:30).

Batismo e o Reino

De acordo com as fontes, o batismo possui uma relação intrínseca e vital com o Reino de Deus, atuando como o sinal visível de aceitação da mensagem do Reino e o “portal de entrada” para o caminho que leva à glória milenar.

Os principais aspectos dessa relação são:

  1. O Portal para o Reino de Glória

As fontes descrevem o batismo como a “porta aberta” para o Reino de mil anos. Ele não é apenas um rito, mas o ato que marca o desejo do indivíduo de participar das promessas proféticas do Reino. Rejeitar o batismo, portanto, é interpretado como uma rejeição ao próprio conselho de Deus e uma exclusão voluntária da benção anunciada.

Prova Bíblica: Jesus afirma em João 3:5 que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”.

  1. Preparação e Purificação dos “Santos”

Como o Reino de Deus é um “Reino de santos”, o batismo simboliza a purificação necessária dos pecados passados para aqueles que pretendem entrar nele. Ele representa o crente sendo colocado além do “dilúvio da ira” que precederá o Reino, garantindo segurança para a glória vindoura.

Prova Bíblica: João Batista pregava o “batismo de arrependimento para o perdão dos pecados” (Marcos 1:4) baseando-se no chamado de Isaías 1:16-17 para “lavar-se e purificar-se”.

  1. A Unção do Rei e o Exemplo de Obediência

O batismo de Jesus é visto como o momento em que Ele foi ungido pelo Espírito como Rei do Reino futuro. Mesmo sendo sem pecado, Jesus submeteu-se ao batismo como um ato de obediência, estabelecendo o padrão para todos os que buscam a “justiça do Reino”.

Prova Bíblica: Em Mateus 3:15, Jesus diz que o batismo era necessário para “cumprir toda a justiça”.

  1. Conexão com a Primeira Ressurreição

O batismo é identificado como a representação da morte e sepultamento com Cristo, o que serve como um penhor ou garantia de que o crente participará da “Primeira Ressurreição” (a ressurreição dos justos para o Milênio).

Prova Bíblica: Paulo argumenta em Romanos 6:5 que, se fomos unidos a Ele na semelhança da Sua morte (através do batismo), também o seremos na da Sua ressurreição.

  1. Testemunho Contínuo do Reino em Mistério

Mesmo após a ressurreição de Cristo e durante o período atual do “Reino em Mistério”, a ordem de batizar permanece vigente porque a doutrina do Reino futuro ainda está sendo proclamada. O batismo continua sendo o sinal de que o homem aceita o testemunho de Deus sobre o Reino que virá.

Prova Bíblica: Filipe batizava homens e mulheres em Samaria quando estes acreditavam nas “coisas concernentes ao Reino de Deus” (Atos 8:12).


Para visualizar essa conexão, imagine que o Reino de Deus é um grande banquete real em um palácio protegido. O batismo funciona como o convite oficial aceito e vestido pelo convidado na portaria: ele demonstra publicamente que você concorda com as regras da casa e que está devidamente trajado para entrar quando as portas finalmente se abrirem. Aqueles que se recusam a passar pela portaria e colocar o traje (o batismo), apesar de ouvirem o chamado, acabam ficando do lado de fora quando a celebração começa.

Chamado a circunspecção

Não seja abatido por dificuldades! Mas não seja presunçosamente confiante! Onde Paulo não podia falar com confiança até o fim de sua carreira, como você deveria? Alto e o chamado à circunspecção.
– Robert Govett, O Reino Futuro de Deus

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