Dispensacionalismo Progressivo
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Briefing: Fundamentos e Evolução do Dispensacionalismo Progressivo
O presente documento sintetiza as análises, marcos históricos e princípios teológicos contidos na obra “Dispensacionalismo Progressivo”, de Craig A. Blaising e Darrell L. Bock. O material detalha a transição do pensamento dispensacionalista desde suas raízes clássicas até sua forma contemporânea, denominada “progressiva”, que busca uma integração maior entre as alianças bíblicas e o plano redentivo de Deus.
Sumário Executivo
O dispensacionalismo progressivo representa uma mudança significativa na interpretação das Escrituras dentro da tradição evangélica. Diferente do dispensacionalismo clássico, que via um dualismo eterno entre um propósito celestial (Igreja) e um terreno (Israel), e do dispensacionalismo revisado, que manteve distinções organizacionais rígidas, o dispensacionalismo progressivo propõe uma visão holística e unificada da redenção.
Os pontos centrais desta abordagem incluem:
- Hermenêutica Histórico-Literária: Uma evolução do literalismo ingênuo para uma análise que considera o progresso da revelação, o gênero literário e a intenção autoral.
- A Igreja como Inauguração: A Igreja não é vista como um parênteses ou interrupção, mas como a fase inicial (inaugurada) do cumprimento das promessas da Nova Aliança e do Reino Davídico.
- Redenção Unificada: Deus possui um único plano redentivo que abrange dimensões pessoais, sociais e políticas, culminando no Reino Eterno, onde distinções étnicas (Israel e Nações) permanecem, mas compartilham da mesma salvação espiritual.
1. Contexto Histórico e Desenvolvimento
O dispensacionalismo não é um sistema estático, tendo passado por três fases principais de desenvolvimento:
Origens e Propagação
- Início do Século XIX: Surgiu no Movimento dos Irmãos na Grã-Bretanha, com figuras como John Nelson Darby, enfatizando a unidade dos crentes e o sacerdócio universal.
- Movimento de Conferências Bíblicas (EUA): No final do século XIX, líderes como D. L. Moody e C. I. Scofield adaptaram essas ideias ao contexto americano, culminando na publicação da Bíblia de Estudo Scofield (1909), que sistematizou o dispensacionalismo.
- Institucionalização: O sistema tornou-se central em escolas como o Moody Bible Institute e o Dallas Theological Seminary, influenciando vastas denominações batistas, presbiterianas e igrejas independentes.
As Três Formas do Pensamento Dispensacionalista
| Característica | Dispensacionalismo Clássico | Dispensacionalismo Revisado | Dispensacionalismo Progressivo |
| Principais Proponentes | Darby, Scofield, Chafer. | Ryrie, Walvoord, McClain. | Blaising, Bock, Robert Saucy. |
| Dualismo de Redenção | Dualismo central: Povo Celestial (Igreja) vs. Povo Terreno (Israel). | Abandono do dualismo metafísico; distinção organizacional entre os grupos. | Redenção holística: Igreja é parte do progresso histórico do plano de Deus. |
| Concepção da Igreja | “Parênteses” ou intercalação na história da redenção. | Entidade espiritual distinta, relacionada ao Cristo nos céus. | Manifestação da graça que inaugura bênçãos da Nova Aliança. |
| O Reino de Deus | Distinção entre “Reino de Deus” (moral) e “Reino dos Céus” (davídico). | Diversas teorias (universal, espiritual, milenar); Reino como “interregno” ou “adiado”. | Reino escatológico unificado; inaugurado na primeira vinda e consumado na segunda. |
2. Características Comuns da Tradição Dispensacionalista
Apesar das mudanças, oito pilares sustentam a identidade desta tradição:
- Autoridade das Escrituras: Ênfase na Bíblia como única revelação inerrante e prática do ministério expositivo.
- Dispensações: Reconhecimento de sucessivos arranjos pelos quais Deus administra Sua relação com a humanidade.
- Singularidade da Igreja: A Igreja é uma nova dispensação originada no Pentecostes pelo batismo do Espírito.
- Significado Prático da Igreja Universal: Valorização da unidade cristã que transcende divisões denominacionais.
- Significado da Profecia: Interpretação das profecias incluindo aspectos políticos, nacionais e terrenos futuros.
- Pré-milenismo Futurista: Crença de que Cristo retornará para reinar na terra após um período de tribulação futura.
- Retorno Iminente: O arrebatamento da Igreja pode ocorrer a qualquer momento (geralmente pré-tribulacionista).
- Futuro Nacional para Israel: Convicção de que as promessas bíblicas de restauração para a nação de Israel serão cumpridas literalmente.
3. O Dispensacionalismo Progressivo: Temas Centrais
O modelo progressivo busca aproximar o dispensacionalismo da interpretação bíblica evangélica contemporânea, refinando os seguintes conceitos:
Redenção Holística e Unificada
O plano de Deus não é dividido em propósitos mutuamente exclusivos (terreno vs. celestial). A redenção cobre todos os aspectos da vida humana. Na eternidade, todos os salvos compartilharão a mesma glória e bênçãos do Espírito, embora as identidades nacionais e étnicas (Israel e as Nações) permaneçam como parte da diversidade da humanidade redimida.
A Estrutura das Alianças
- Aliança Abraâmica: O fundamento de todas as alianças subsequentes.
- Nova Aliança: Não é algo “espiritualizado” ou pertencente apenas a um futuro Israel; ela foi inaugurada na Igreja. As bênçãos espirituais atuais (habitação do Espírito) são o cumprimento inicial parcial das promessas de Jeremias e Ezequiel.
- Aliança Davídica: Cristo já está exercendo uma forma de reinado davídico à mão direita do Pai, garantindo o futuro reinado milenar físico na terra.
Natureza da Igreja
A Igreja não é uma raça “terceira” ou diferente. Ela é a humanidade redimida (judeus e gentios) nesta era. Judeus cristãos não perdem sua herança nas promessas futuras de Israel; eles são o remanescente que testemunha a reconciliação que será plena no Reino futuro.
4. Hermenêutica: O Método Histórico-Gramatical-Literário-Teológico
A base do dispensacionalismo progressivo é uma hermenêutica que considera a interação dinâmica entre autor, texto e leitor.
Elementos da Interpretação
- Contexto Histórico: Superar a distância histórica através do estudo de contextos culturais, geográficos e literários antigos (ex: entender a rejeição aos samaritanos para compreender a parábola de Jesus).
- Contexto Gramatical: Palavras não possuem significado isolado; o sentido é determinado pela relação entre os termos na sentença e no parágrafo.
- Contexto Literário-Teológico: Reconhecimento de gêneros literários e da unidade teológica da Bíblia. A interpretação literal não é “letra morta”, mas a busca pelo sentido “claro, natural e normal” dentro do gênero (poesia, profecia, narrativa).
Tipologia e Cumprimento
A tipologia no sistema progressivo é horizontal e histórica, não apenas vertical e espiritual. Eventos e pessoas do Antigo Testamento (tipos) encontram correspondência em eventos posteriores da história da redenção, culminando em Cristo. O significado dos eventos é dinâmico, revelando-se mais profundamente à medida que a história de Deus avança (revelação progressiva).
Níveis de Certeza
O texto defende uma postura de humildade interpretativa, classificando o entendimento em quatro níveis:
- Convicção Absoluta: Fundamentos básicos da fé.
- Convicção Firme: Visões preferidas em questões com divergência.
- Convicção Leve: Questões onde se admite a possibilidade de o outro estar correto.
- Incerteza Genuína: Áreas onde não há clareza textual suficiente.
Conclusão
O dispensacionalismo progressivo afirma-se como um sistema de continuidade na mudança. Ele mantém os marcos distintivos da tradição (futuro para Israel, pré-milenismo), mas rejeita o isolamento da Igreja em relação ao progresso histórico das alianças. Ao ver o Reino como “já iniciado, mas ainda não consumado”, esta perspectiva oferece uma base teológica para a ação da Igreja no mundo como parte de um plano holístico de restauração de toda a criação.
| Sistema Teológico | Principais Proponentes | Características das Dispensações | Relação Israel e Igreja | Visão sobre o Reino de Deus | Principais Alianças Envolvidas | Fonte |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Dispensacionalismo Clássico | John Nelson Darby, C. I. Scofield, Lewis Sperry Chafer | Arranjos diferentes sob os quais os seres humanos são testados. Foca no dualismo entre humanidade celestial e terrena. | Dualismo estrito; Israel é o povo terreno e a Igreja é o povo celestial. A Igreja é vista como um parênteses ou intercalação na história da redenção terrena. | Distinção entre Reino de Deus (governo moral universal) e Reino dos Céus (reino davídico messiânico adiado). | Aliança Abraâmica interpretada literalmente (terreno/Israel) e espiritualmente (celestial/Igreja). Nova Aliança focada primariamente em Israel. | [1] |
| Dispensacionalismo Revisado | Alva J. McClain, John Walvoord, Charles Ryrie, J. Dwight Pentecost, Stanley Toussaint | Abandono do dualismo metafísico (celestial/terreno) por uma distinção organizacional entre dois grupos de pessoas (Israel e Igreja). | Distinção estrutural e nominal eterna entre Israel e Igreja, mas compartilhando a mesma salvação (vida eterna). | Abandono da distinção entre Reino de Deus e Reino dos Céus. Diversas teorias (Reino Mediatário, Universal, Espiritual, Teocrático). | Reconhecimento de um elo de aliança entre Israel e Igreja, especialmente na Nova Aliança, embora mantendo distinção de cumprimento (espiritual para Igreja, nacional para Israel). | [1] |
| Dispensacionalismo Progressivo | Craig A. Blaising, Darrell L. Bock, Robert L. Saucy | Arranjos sucessivos e progressivos na revelação e realização de uma redenção holística e unificada. | A Igreja é uma parte vital do plano de redenção de Israel, não um plano secundário. Visão holística: judeus e gentios compartilham as mesmas bênçãos espirituais sem perder distinções étnicas/nacionais. | Reino escatológico unificado com dimensões políticas e espirituais, inaugurado na primeira vinda (já) e consumado na segunda (ainda não). | Alianças Abraâmica, Davídica e Nova Aliança são vistas como fundamentos unificados, inauguradas parcialmente na Igreja e cumpridas plenamente no futuro. | [1] |
[1] Dispensacionalismo progressivo - Craig A. Blaising.pdf